Número de exames diagnósticos do câncer de colo de útero reduz durante a pandemia no Brasil, aponta Febrasgo

    0
    312

    No Maranhão, comparando os dados de 2019 e 2021, observamos uma queda de 13% na realização dos exames. Contudo, se compararmos dados de 2020 e 2021, notamos um aumento na procura por exames de cerca de 49%. É imprescindível que essas mulheres retomem os preventivos para diminuir a prevalência de morte, que atualmente é de aproximadamente 39,5% dos casos.

    [xyz-ips snippet="Banner-728x90"]

    O próximo 26 de março é lembrado como o Dia Mundial da Prevenção do Câncer de Colo do Útero. Dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca) informam que esse tipo de tumor é o terceiro mais incidente entre mulheres no Brasil, atrás apenas do câncer de pele não melanoma e do câncer de mama. Apesar de altamente prevenível, o enfrentamento da doença tem desafios, como a baixa taxa de vacinação contra o HPV (Vírus do Papiloma Humano), seu agente causador, e a queda nos diagnósticos devido à pandemia da Covid-19, e tem preocupado especialistas quanto ao aumento nos óbitos.

    O Inca estima que, anualmente, sejam diagnosticados 16.710 novos casos de câncer de colo do útero, com uma prevalência de morte em aproximadamente 39,5% dos casos, segundo dados mais atuais, de 2019. Com isso, a doença é a segunda causa de morte por tumores na população feminina, havendo mais óbitos somente entre diagnosticadas com câncer de mama. De 2008 a 2018, a taxa de mortalidade saltou 33%, resultando em uma vítima a cada 90 minutos, segundo dados do Ministério da Saúde.

    Especialistas da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) explicam que entre os obstáculos para o combate ao câncer de colo de útero no Brasil estão o elevado número de mulheres que não realizam exames preventivos periodicamente, a escassez de centros especializados no tratamento do câncer e a reduzida cobertura da vacinação contra o HPV.

    A pandemia da Covid-19 também influenciou na baixa no número de diagnósticos, visto que muitas consultas precisaram ser canceladas ou reagendadas. Além disso, o presidente da Febrasgo, o Dr. Agnaldo Lopes, acrescenta que aspectos sociais, como a baixa escolaridade e marcadores de raça-etnia tornam-se indicadores que revelavam as diferenças no acesso a medidas preventivas e ao diagnóstico precoce.

    “O SUS atende mais de 75% dos pacientes com câncer no país. Para além do diagnóstico, temos o desafio do início do tratamento. Antes da pandemia, o período entre o diagnóstico e o primeiro tratamento durava mais de 60 dias, em 58% dos casos. Hoje esse tempo de espera pode ser bem maior. Devido a fatores como esses, quase nove em cada dez óbitos por câncer do colo do útero, por exemplo, ocorrem em regiões menos desenvolvidas”, diz Lopes.

    Queda no número de exames – Em uma busca no Sistema de Informação do Câncer (SISCAN) foi identificado que, enquanto em 2019, ano em que começou a pandemia da Covid-19, foram realizados quase 6,5 milhões de exames citopatológicos – um dos exames solicitados segundo as diretrizes para diagnóstico do câncer de colo do útero – entre pessoas do sexo feminino de todas as idades no Brasil, em 2020, o número de solicitações desse exame caiu cerca de 43% e, em 2021, reduziu em torno de 11%.

    Em relação a 2019, quase todos os Estados e o Distrito Federal tiveram queda nas solicitações do exame citopatológico em 2020 e uma recuperação no número de pedidos em 2021. Somente os Estados do Amazonas, do Rio de Janeiro e de Sergipe tiveram mais solicitações do exame em 2021 em comparação a 2019, conforme tabela no final do texto.

    A prevenção também é importante – Além do diagnóstico precoce, a ginecologista Dra. Walquíria Quida Salles Pereira Primo, presidente da Comissão Nacional Especializada em Ginecologia Oncológica da Febrasgo, explica que a forma mais eficaz de prevenção do câncer de colo de útero se dá por meio da vacinação contra o HPV. A vacina distribuída gratuitamente pelo SUS, de acordo com a especialista, protege contra quatro tipos do vírus: 6, 11, 16 e 18 — sendo os dois últimos relacionados a 70% dos casos de câncer de útero. Mas a cobertura vacinal para o HPV no país ainda fica aquém do desejado.
    “A Febrasgo tem defendido que para uma ação efetiva, a cobertura vacinal seja de 90%. Hoje é de 46%”. A especialista complementa que a vacina contra HPV deve, em um cenário ideal, ser ministrada em três doses para completa ação protetiva, porém duas doses têm se mostrado suficientes. Segundo ela, seria importante que todas elas fossem aplicadas nas escolas.

    “Hoje, para tomar a última dose da vacina, é necessário procurar uma unidade de saúde. Mas é importante irmos até os jovens para garantir essa prevenção. E as escolas poderiam ser esse local”, sugere Pereira Primo. Mulheres de nove a 45 anos podem se vacinar contra o HPV. Para os homens, indica-se que a prevenção ocorra até os 26 anos. Quanto mais precocemente ocorrer, maior o potencial de a proteção ocorrer antes que a pessoa tenha contato com o vírus.

    A dificuldade de acesso ou a falta de hábito de se consultar regularmente com profissionais de ginecologia é outro entrave à prevenção, identificação e, consequente, tratamento do câncer de colo do útero. Pesquisa da Febrasgo, realizada em 2018, revelou que 13% das mulheres, com mais de 16 anos, nunca foram ou não costumam ir ao ginecologista. Outro dado que incide negativamente no combate à doença aponta que 60% da população feminina chega, pela primeira vez, ao consultório do ginecologista com cerca de 20 anos de idade em decorrência de algum problema instalado, por suspeita de gravidez ou por já estar grávida.

    Para Pereira Primo, uma forma de incentivar a procura por acompanhamento médico preventivo seria atrelá-lo a programas sociais do governo: “A maioria das mulheres não realiza o exame de prevenção do câncer de colo de útero, o Papanicolau. Ao colocá-lo como uma das contrapartidas de acesso a esses programas, poderemos ter mais condições de promover um rastreamento da doença, além de orientar e ajudar a prevenir outras patologias”.

     

    SISCAN – Total de solicitações de Cito do colo –

    Por pacientes – Brasil

    UF de residência 2019 2020 2021
    Total 6.486.878 3.693.708 5.767.392
    Rondônia 46.259 27.888 40.301
    Acre 40.818 14.738 25.798
    Amazonas 60.166 42.532 142.230
    Roraima 20.042 10.855 16.317
    Pará 231.298 120.643 187.171
    Amapá 15.549 4.827 7.322
    Tocantins 26.612 32.063 29.966
    Maranhão 203.846 119.068 177.745
    Piauí 72.524 31.071 60.881
    Ceará 301.658 182.637 246.712
    Rio Grande do Norte 124.073 64.347 104.403
    Paraíba 173.098 93.950 154.021
    Pernambuco 349.559 213.878 342.173
    Alagoas 161.905 88.354 150.578
    Sergipe 82.884 44.665 85.404
    Bahia 540.524 275.814 498.352
    Minas Gerais 954.501 532.876 790.692
    Espírito Santo 221.498 113.446 166.305
    Rio de Janeiro 101.999 80.053 196.706
    São Paulo 768.480 466.462 646.951
    Paraná 611.510 332.032 462.980
    Santa Catarina 394.853 216.297 366.972
    Rio Grande do Sul 480.792 320.962 467.511
    Mato Grosso do Sul 105.269 52.429 84.596
    Mato Grosso 137.922 79.595 112.250
    Goiás 192.004 98.299 159.039
    Distrito Federal 69.857 35.016 46.146

     

     

     

     

    DEIXE UMA RESPOSTA

    dois × 1 =