Obesidade, doenças cardiovasculares, síndrome metabólica, diabetes tipo 2, doença pulmonar obstrutiva crônica, doenças mentais, entre outras doenças podem surgir no decorrer da vida de uma criança, caso a mãe não tenha cuidado e atenção com sua alimentação e atividades físicas ao longo da gestação. Essas discussões foram assuntos que levou a Universidade Federal do Maranhão a sediar o 5º Simpósio Internacional de Programa Metabólico e Estresse (5th Internacional Symposium on Metabolic Programming and Stress) e o 2º Encontro do Capítulo Íbero-Americano do Desenvolvimento Original da Saúde e das Doenças (2nd Meeting of Ibero-American Developmental Origins of Health and Diseases – DOHaD – Chapter), que teve início nesta quarta-feira, 02/11, até hoje, dia 04.

Segundo o coordenador do evento na UFMA, Marcus Paes, a sociedade vive em uma região que mudou de estado nutricional muito rapidamente. De acordo com ele, há 15 ou 20 anos havia uma população muito pobre com índices de segurança alimentar muito baixo, em que não só crianças como adolescentes e mães jovens muitas vezes passavam fome durante a gravidez. “Nos últimos 10 – 15 anos, especialmente com os programas sociais implementados pelo Governo Federal, nós tivemos uma mudança neste perfil, e essa mudança foi tal que em 2015 o Brasil conseguiu sair do mapa da fome do mundo elaborado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO)”, explica.
Marcus lembra então que as crianças eram possivelmente gestadas sobre uma natureza de escassez nutricional, mas que agora estão gerando filhos criados no mundo com alimentos altamente calóricos, em um intervalo de tempo muito pequeno. “Migramos de crianças desnutridas para crianças supernutridas, mas não bem alimentadas, porque ingerem principalmente alimentos muito calóricos. Então esse tipo de estresse alimentar é capaz de promover alterações metabólicas no corpo do indivíduo que faz com que ele ainda adulto-jovem venha a desenvolver uma série de doenças como, por exemplo, as doenças cardiovasculares, a diabetes mellitus tipo 2, a obesidade e síndrome metabólica, o mal de alzheimer e até o câncer”, alerta.
Esses dados foram comprovados pela secretária da Sociedade Internacional DOHaD, a canadense Deborah Slobode, que ministrou a conferência de abertura intitulada Maternal host – microbial interactions in the context of obesity, que em português trata da interação do acolhimento materno microbiano no contexto da obesidade. Ela apresentou os dados analisados nos estados canadenses, apontando que o peso que o bebê tem ao nascer está associado ao risco dele desenvolver doenças, ou seja, se estiver abaixo do peso, a criança tem maior probabilidade de, ao crescer, aumentar o risco de intolerância à glicose, resistência à insulina, hipertensão, obesidade, puberdade precoce, ansiedade ou aumento do estresse, osteoporose, câncer ou até alergia e asma.
A doutora Slobode associa que o risco do bebê adquirir essas doenças no futuro está no tipo de parto que a mulher realiza. Se ela fizer o parto cesariana, a probabilidade da criança adquirir, ao longo da vida, uma dessas doenças é maior, enquanto que se fizer normal, a criança corre menos esse risco. Ela fez uma relação com o Brasil e pontuou que o País tem vários pesquisadores de renome internacional que fazem a pesquisa justamente nesse Campo da nutrição materna.
“O Brasil é um país em desenvolvimento que ainda tem muita pobreza. Existe má nutrição das mães que não tem nutrição adequada, o bebê que tem crescimento intra-uterino restrito e isso faz com que aquela criança, mais à frente, desenvolva várias doenças, várias comorbidades”, pontua.
Segundo ela, existem várias formas de reverter ou de melhorar essa situação. Uma delas seria dar mais atenção àquelas mulheres que estão gestantes e que tem subnutrição para que elas não fiquem desnutridas. Outra forma é assistir àquelas mães que são obesas, fazendo com que elas realizem mais exercícios físicos e as crianças também, mesmo no começo de vida, porque isso melhora o desenvolvimento ao longo da vida. “Ainda não existe nenhuma recomendação médica para o exercício físico no começo da infância, mas é muito importante que a mulher atue enquanto estiver grávida, o que vai evitar risco maiores à vida do bebê”, relatou.
O simpósio reúne pesquisadores de diversos países das ciências básicas e clínicas das várias áreas da saúde, que fazem exposições de trabalhos em formato de pôsteres e apresentações orais. Marcus Paes, coordenador do evento, destaca então que essa reunião é importante por ter uma troca de experiências com pesquisadores de várias partes do mundo, além de pesquisadores locais que estão preocupados com o que vai acontecer com os filhos dessas mães desnutridas e o que vai acontecer com a prole deles.














